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Para além do mel

  • Foto do escritor: Roberto Mendonça Maranho
    Roberto Mendonça Maranho
  • 27 de dez. de 2024
  • 3 min de leitura

Maria morava com os dois filhos em Campinas, interior de São Paulo. Com seus quarenta e quatro anos, estava divorciada há pouco mais de dez anos. Era muito apegada à filha Celina e ao filho Jerônimo, ambos adolescentes. Naquela manhã de final de dezembro, sentia seu coração apertado. Era o dia em que seus filhos iriam viajar de férias com o pai para Fortaleza. Seria um mês longe de suas crias e, embora soubesse ser importante para as crianças e para o pai, sentia uma dor lá no fundo de seus sentimentos. Uma mistura de saudade, preocupação e amor.


Celina, ao sair de casa rumo à viagem de férias que se iniciava, enviou uma mensagem para Rodrigo, o namorado de sua mãe. Dizia que percebia que a mãe estava triste e estava preocupada com ela, pedindo que Rodrigo cuidasse bem dela. O namorado de Maria então foi até a casa de sua amada. Sentaram, conversaram, mas logo o coração de mãe já batia mais forte e Maria comentou sobre seus sentimentos em relação às crianças. Não se sentia bem, mesmo sua razão dizendo que tudo corria normalmente, ela não estava acostumada a ficar tanto tempo longe de seus amados filhos.


Rodrigo e Maria estavam sentados no sofá enquanto conversavam. Foi então que ele notou que havia uma abelha no cabelo de Maria muito próximo a seu rosto. Maria ficou assustada e pediu para ele tirar ela de lá. Rodrigo tentou espantar a abelha, mas ela acabou picando o dedo de Maria, que sentiu dor forte de imediato. Maria esticou a mão para Rodrigo mostrando o ferrão que estava visível em seu dedo. Ele então rapidamente tirou o ferrão, mas a dor era muito intensa.

Alguns minutos depois a dor incomodava, mas já era possível conviver com ela. Maria conversava sobre assuntos diversos, se distraindo da questão central que apertava seu coração. Às vezes esse assunto lhe vinha à cabeça, mas logo a dor no dedo apertava e ela se esquecia novamente da sua dor emocional.


Resolveram então assistir a um episódio de uma série pela internet na televisão. Após o primeiro episódio, Rodrigo conversou com sua prima, que também morava em Campinas, e combinaram de tomar um café na casa dela. Então se deslocou com Maria para lá. Durante o lanche da tarde o papo fluía bem. E conversa vai, conversa vem, Maria se lembrava das crianças, e seu coração voltava a ficar apertado. E então a dor no dedo se apresentava novamente. E ela acabava desviando sua atenção e conseguindo voltar a um estado de tranquilidade.

Maria e Rodrigo pegaram o carro sentido a casa dela. Pararam numa loja de conveniências e compraram diversos salgadinhos, água com gás e refrigerante.


Chegaram em casa, prepararam uma bandeja de tira gosto e sentaram novamente no sofá para mais episódios daquela série que tanto prendia a atenção. E quando a lembranças das crianças vinha a mente de Maria, a dor no dedo novamente latejava e ela mudava o foco de seus pensamentos. E nisso o dia passou... Quando perceberam já era dez horas da noite.


No fim daquele dia perceberam como foi importante o papel daquela abelha, que sacrificara sua vida dando aquela ferroada. Aprenderam que a dor, além de ter um poder de transformação e aprendizagem, também pode desempenhar um papel que muitas vezes nem imaginamos.


(27/12/2024 – Roberto Mendonça Maranho)

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